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Funeral do papa emérito reúne multidão e emociona fiéis

 Funeral do papa emérito reúne multidão e emociona fiéis
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Não aconteceu nada parecido na Igreja Católica nos últimos 221 anos. Em uma manhã nublada, diante de 120 cardeais, 400 bispos, 3.700 sacerdotes e pelo menos 50 mil fiéis, um pontífice presidiu o funeral de outro. Depois de permanecer exposto dentro da Basílica de São Pedro, em um velório que mobilizou 160 mil pessoas, o corpo do papa emérito Bento XVI, falecido no sábado passado, aos 95 anos, foi conduzido à Praça de São Pedro, onde o papa Francisco celebrou a missa, a partir das 9h30 (5h30 em Brasília). Oitenta minutos depois, o sumo pontífice se aproximou, tocou o caixão de cipreste, inclinou a cabeça, fechou os olhos, fez uma oração, o abençoou e levou a mão ao coração.
Enquanto a multidão gritava “Santo subito!” (“Santo já”, em latim) — um pedido pela canonização de Bento XVI —, a urna era carregada por 10 homens até a cripta da basílica. Sobre o caixão do alemão Joseph Ratzinger, foi colocada uma cópia dos Evangelhos. A sepultura de Bento XVI é a mesma onde João Paulo II foi enterrado antes de sua beatificação, em 2011. O funeral encerra uma fase do pontificado de Francisco, durante a qual ele teve de conviver com outro papa, vestido de branco, morando em uma residência nos jardins do Vaticano e com posições mais conservadoras.

Ao se despedir do antecessor, Francisco ressaltou a devoção de Bento XVI pela Igreja Católica. “São as últimas palavras que o Senhor pronunciou na cruz; quase poderíamos dizer, o seu último suspiro, capaz de confirmar aquilo que caracterizou toda a sua vida: uma entrega contínua nas mãos de seu Pai. Mãos de perdão e compaixão, de cura e misericórdia, mãos de unção e bênção”, disse o pontífice argentino, que precisou usar uma cadeira de rodas e apoiou-se em uma bengala ao se levantar para o último adeus a Bento XVI. No público, também estavam chefes de Estado e de governo, incluindo a premiê italiana, Giorgia Meloni; o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Obán; o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa; o rei Felipe da Bélgica; e a rainha emérita espanhola Sofia; além de diplomatas de várias nacionalidades.
Em entrevista ao Correio, o padre, teólogo e vaticanista norte-americano Joseph Fessio — ex-aluno de doutorado de Bento XVI — enalteceu as qualidades do papa emérito. “O que ele fez administrativamente foi alvo de muitas críticas, que logo serão esquecidas. O que Ratzinger fez enquanto professor permanecerá. Ele foi um dos maiores professores e escritores do século 20. Um dia, certamente, será amplamente reconhecido como o Pai e o Doutor da Igreja Católica moderna”, afirmou. “Os bispos, incluindo o papa, têm três tarefas ou munera: padres, profetas e reis. Isso significa, em termos mais modernos, santificar, ensinar e governar. Quanto a santificar, ele não apenas nos deu talvez o maior tratado já escrito sobre a missa, o Espírito da Liturgia, mas também o exemplo de grande santidade em tudo o que fez e disse.”
Divergências
Para Faustino Teixeira, pós-doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, a morte de Bento XVI marca um momento peculiar no pontificado de Francisco. “Enquanto esteve mais recolhido, como papa emérito, Bento XVI recusou  qualquer tentativa de ser utilizado pelos setores mais conservadores contra Francisco. Nesse período, a relação entre os dois foi de respeito e cortesia. Foi um tempo em que Bento XVI também escreveu pouco, concentrando-se mais na vida de oração. Isso não significa que ele tenha deixado de se articular com os segmentos com os quais estava mais sintonizado”, explicou.
Teixeira disse não ter dúvidas de que, em determinados momentos, a distinta visão teológica entre os dois papas veio à luz. Ele se lembra de quando Francisco rejeitou a carta apostólica Summorum Pontificum, que, na prática, sugeria uma reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. “Isso irritou profundamente o papa emérito. Tanto que o seu secretário particular, Georg Gänswein, atacou explicitamente Francisco”, relatou. O estudioso advertiu que os conservadores aguardavam apenas a morte de Bento XVI para retomar uma violenta resistência contra o argentino.

Em meio à semana de luto no Vaticano, Gänswein causou polêmica ao conceder uma entrevista à imprensa alemã na qual criticou Francisco. Segundo ele, a decisão do argentino de proibir a celebração da missa em latim, ao reverter uma decisão tomada por Bento XVI em 2007, “partiu seu coração”. Em outra entrevista, ao jornal italiano La Reppublica, o bispo e ex-secretário sustenta que “o diabo agiu contra Bento XVI”, ao falar dos “problemas” que debilitaram Ratzinger. Também em 2007, Bento XVI veio ao Brasil e canonizou Frei Galvão (leia Depoimento). Em 18 de fevereiro de 2013, surpreendeu o mundo, ao anunciar sua renúncia e citar a saúde fragilizada. Durante 3.604 dias, o religioso alemão permaneceu recluso, no Vaticano, até a morte.
“A minha primeira comunhão foi com ele”
“Quando Bento XVI canonizou Frei Galvão, em São Paulo, eu tinha 7 anos. Guardo memórias esparsas daquele 11 de maio de 2007. Eu me recordo da cerimônia. A minha primeira comunhão foi com Bento XVI. Eu e meus pais fomos ao Campo de Marte, local da cerimônia, em um ônibus cheio de cardeais e bispos. Estava focado em fazer tudo direito, o sacramento, com o respeito que merece ser feito. A gente tem que beijar o Anel do Pescador, e eu me esqueci disso. Aí um cardel apontou para o anel, e deu tudo certo. O encontro com Bento XVI foi muito breve. Ele pronunciou algumas palavras que não me lembro e me deu o sacramento.
Vejo Bento XVI como um grande estudioso da fé. Foi um dos maiores teólogos deste e do último século. Foi com essa bandeira que ele chegou ao Vaticano. O nosso contato foi muito breve. O fato de ele ter vindo ao Brasil para canonizar Frei Galvão mostra como ele gostava de conduzir as coisas, aponta o caráter e a integridade do próprio papa.

Uma coisa muito bacana é que, quando veio ao Brasil, Bento XVI fez questão de aprender o português o suficiente para se comunicar com os brasileiros e passar mensagens ao público. Para mim, fica um sentimento de tristeza pela perda de um grande papa, que teve um significado especial, em um momento especial de nossas vidas.
Bento XVI sempre foi muito fiel ao serviço e encarou a posição com responsabilidade enorme. Imagino que para o papa Francisco tenha sido uma experiência muito nova enterrar outro pontífice. É um momento diferente para a Igreja Católica e que faz a gente refletir sobre como lidar com o inesperado. Francisco fez uma coisa que ninguém fazia havia dois séculos. E o fez com a convicção de que era o certo a ser feito.”
Enzzo Gallafassi, 23 anos, estudante de medicina cujo nascimento foi reconhecido como milagre de Frei Galvão, o que levou à canonização do brasileiro, em 2007. A mãe de Enzzo, Sandra Grossi, teve uma gravidez de alto risco. Ela ingeriu as pílulas de Frei Galvão e deu à luz com 32 semanas de gestação. Enzzo morou em Brasília dos 3 aos 17 anos; hoje, ele vive em São Paulo. Depoimento ao Correio

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